O Jornalismo sob influência das big techs

O jornalista Marcelo Soares reflete sobre o atual modelo de negócios do Jornalismo, que já perdeu a publicidade como fonte de renda e é bastante limitado pelas receitas da filantropia. “As redações tornaram-se reféns de métricas e formatos que transformaram a notícia em uma commodity amorfa”, afirmou, denunciando “a mesmice” noticiosa induzida por Google e assemelhados. Profissional premiado por trabalhos com Jornalismo de dados, Soares é diretor-suplente da APJor, membro do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos e diretor fundador do estúdio de inteligência de dados Lagom Data.

Crédito da imagem: Public Domain Image Archive, 1833, autor anônimo. Trata-se de um fenacistoscópio, brinquedo muito popular na Inglaterra do século XIX, considerado uma das primeiras formas de animação e um precursor do cinema moderno.

Por Leda Beck*

Especialista em Jornalismo de dados, Marcelo Soares abriu sua palestra com uma longa citação de Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez. Escolheu justamente o trecho em que o cigano Melquíades exibe os seus ferrinhos imantados, para maravilhamento da população de Macondo e sobretudo de seu líder, José Arcadio Buendía. O cigano avisa, porém, que os ferrinhos imantados não servem para achar ouro.

A Inteligência Artificial (IA) é hoje um ferrinho imantado, deslumbrando particularmente os jornalistas, que estão entre as principais vítimas dela. “Como regra geral, porém, não se interessam pelo assunto (exceto sob a perspectiva de negócios) e só entrevistam a respeito quem tem algo a vender nessa área”, diz Soares, diretor-suplente da APJor, membro do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos e diretor-fundador do estúdio de inteligência de dados Lagom Data.

Só falta aos vendedores contemporâneos de ferrinhos imantados a honestidade do cigano Melquíades – não, a IA tampouco serve para achar ouro. Esse “ouro” do Jornalismo ainda possível só pode ser encontrado pela inteligência natural mesmo – ou biológica, como quer Miguel Nicolélis, que chama a IA de NINA (nem inteligência nem artificial).

Autonomia capturada

Segundo Soares, a dependência financeira das plataformas digitais criou um ciclo de vulnerabilidade para os veículos de comunicação. Ele cita o exemplo do Google, que estabeleceu parcerias e programas de pagamento para que as empresas adotassem suas ferramentas, como o Google Discover, que em seus primeiros meses deu uma fatia razoável de audiência para veículos de todos os portes. Mas, diz Soares, “a plataforma frequentemente fecha a torneira, alterando algoritmos e reduzindo drasticamente o tráfego, o que inviabiliza negócios que se tornaram dependentes”.

Ele acredita que o jornalismo atravessa um período de reconfiguração profunda, onde a autonomia editorial foi, em grande parte, capturada por algoritmos e modelos de negócio ditados por gigantes tecnológicos. E ironiza: “O cenário é de transição de um jornalismo que busca a verdade para o de hegemonia das ‘máquinas de encher linguística’, onde redações tornam-se reféns de métricas e formatos que transformaram a notícia em uma commodity amorfa”. Nesse quadro, “tudo vai depender cada vez mais do apoio dos leitores e nós, jornalistas, vamos depender cada vez mais de nós mesmos”.

Marcelo Soares chama os programas de IA de “geradores de lero-lero”. Ele está longe de ser um negacionista da tecnologia. “Esses programas são ótimos pra trabalhar com texto, para sugerir títulos e legendas, para traduzir textos factuais”, diz, observando que são péssimos para apurar as informações: “Se perguntar ao Gemini quem é o meu pai, ele vai dizer que é o Jô Soares, com quem só tenho em comum o sobrenome, o sobrepeso e a cor do cabelo”, disse. Nas redações, ponderou, quem mais acredita que o ChatGPT faz milagres são, numa ponta, os profissionais mais verdes e, na outra, os patrões.

Superados os modelos da publicidade e da filantropia para sustentar o bom jornalismo, a única saída, afirmou, é reconectar o jornalismo ao interesse real das pessoas. Ele cita o exemplo do jornal Plural, de Curitiba (PR), que faz uma ótima cobertura de temas que interessam aos leitores, como debates na eleição municipal, eleição de conselhos tutelares, projetos com fundações etc. Também cita o exemplo do jornal Varadouro, que era impresso no Acre na década de 1980, mas “morreu e renasceu” digital recentemente, através de um grupo de Whatsapp que reúne fontes, leitores e comunidade indígena. “As matérias chegam aos leitores logo que ficam prontas”, relata Soares. “Isso mostra que um outro jornalismo é possível.”

 


* Leda Beck é ex-presidente da APJor. Colaborou Moacir José, conselheiro da APJor.

Para saber mais:
• Íntegra da palestra de Marcelo Soares no canal da APJor no YouTube: O Jornalismo sob influência das big techs.
• Sobre a recente Conferência de IA na China: Bandung 21.

Foto de APJor

APJor

A Associação Profissão Jornalista (APJor) é uma organização sem fins lucrativos, criada em 2016 por um grupo de 40 jornalistas, com o objetivo de defender o jornalismo ético e plural e valorizar o papel do jornalista profissional na sociedade brasileira.