Combatendo os desertos de notícias

Palestra de Fernanda Lara mostrou que jornalismo local e colaborativo pode ser alternativa de sustentabilidade financeira para jornalistas que não querem depender de grandes mídias e de mecanismos comandados por big techs para sobreviver.

Ilustração: Do site da Revista Arco, da UFSM

Por Moacir José*

Uma proposta que adapta o Jornalismo às novas tecnologias da internet, que aposta num mercado regional como saída para os profissionais da área e que amplia seu universo de atuação para um ecossistema digital colaborativo, evitando os prejuízos sofridos por veículos onde o jornalista tem de fazer tudo sozinho: essa é a diretriz do projeto Mais Pelo Jornalismo (MPJ), criado e conduzido por Fernanda Lara.

Ela também fundou a plataforma I’MAX, que existe para revitalizar e dar sustentabilidade financeira ao jornalismo independente no Brasil, oferecendo uma alternativa ao modelo de negócio das grandes mídias. Lara detalhou o projeto durante a palestra “A experiência de resgatar o jornalismo local”, transmitida em maio pelo canal da APJor no Youtube, dentro da série “O futuro do Jornalismo e o Jornalismo do futuro”.

A iniciativa busca reverter o cenário de ampliação do que se convencionou chamar de “deserto de notícias” ‒ localidades onde não existem veículos jornalísticos, impressos ou digitais. Segundo levantamento da I’MAX, em 11 anos (de 2014 a 2024), o número de mídias digitais que fecharam (13.147) foi 22% superior ao das que foram abertas (10.795). A pesquisa constatou que muitos dos veículos que sucumbiram tiveram uma existência efêmera, desaparecendo antes mesmo de serem catalogados no ano. Ao mesmo tempo, deixaram de existir veículos centenários, que passaram de pai para filho e serviram de referência para muitas pequenas cidades. “A tradição de consumir notícias locais se perdeu junto com eles”, disse Lara.

A vice da APJor, Mara Ribeiro, Fernanda Lara e a presidente da APJor, Darlene Menconi.

A estratégia para reverter esse quadro está ancorada em três pilares: suporte tecnológico, consultoria editorial e uma nova visão de negócios. Sem deixar de lado esse segmento regional, que ela acredita ser “o futuro do jornalismo” e onde, afirmou, “há muito dinheiro e muitas oportunidades sobre a mesa”. Para ela, o Jornalismo regional pode se reconectar com a comunidade através da territorialidade e de uma prática focada em personagens e identidades locais. “As pessoas são sedentas de serem enxergadas pelo jornalismo”, diz ela. Dos 1.000 veículos digitais de comunicação aos quais a I’MAX pretende dar suporte (30 mídias por Estado da Federação), Lara calcula que 80% serão de jornalismo regional; os 20% restantes ficariam com projetos segmentados ou setorizados. Mas ela ressalva: “Não queremos ‘jornalismo de escândalo’ para aumentar audiência em redes sociais”.

O suporte de infraestrutura tecnológica da I’MAX (servidores e design) é gratuito, o que já ajuda muito. Segundo Lara, gasta-se, em média, R$ 15.000 por ano para manter um site no ar. É um valor relativamente elevado, se se considerar que, nas pequenas cidades, a realidade é a existência de “redações de um jornalista só”, com profissionais acumulando funções de apuração, distribuição e vendas, o que os sobrecarrega e os isola, com prejuízo para a qualidade do produto oferecido. Por isso é que o MPJ exige, como pré-requisitos, um projeto editorial claro e um comportamento ético, um espírito colaborativo, que se traduz por troca de experiências com outros membros da comunidade, participação em reportagens em grupo e/ou apoio a colegas em decisões editoriais difíceis.

A I’MAX também faz experiências para desenvolver uma tecnologia que proteja o conteúdo editorial produzido pelos pequenos veículos regionais, para que não sejam indevidamente apropriados por grandes empresas de mídia ou pelas big techs. Trata-se da “tokenização” de notícias, ou seja, um mecanismo que identificará a autoria e a originalidade de uma reportagem. “Isso combaterá a concorrência desleal, que hoje está impune”, aposta a proprietária da plataforma.

 


* Moacir José é conselheiro da APJor

Para saber mais:
• Veja a íntegra da palestra de Fernanda Lara no canal da APJor no YouTube
• Projeto Mais Pelo Jornalismo (MPJ)
• Plataforma I’MAX

Foto de APJor

APJor

A Associação Profissão Jornalista (APJor) é uma organização sem fins lucrativos, criada em 2016 por um grupo de 40 jornalistas, com o objetivo de defender o jornalismo ético e plural e valorizar o papel do jornalista profissional na sociedade brasileira.