“Jornalismo: modelos de financiamento, riscos e oportunidades”

Dal Marcondes abordou a importância de um jornalismo independente financeiramente, de uma “transparência algorítmica” e da adoção de quatro caminhos que podem garantir a sobrevivência da produção jornalística de qualidade.

Crédito da ilustração: Public Domain Image Archive. Autor: Paul Krafft, 1907. Legenda da ilustração: “MONTANHA DE DINHEIRO – É tempo de dizer basta, quando a renda de um único homem é tão grande que ele não consegue lidar com ela em dinheiro vivo, enquanto a renda de seus trabalhadores não é suficiente para mantê-los decentemente vivos”.

Por Moacir José*

“O jornalismo tem de pagar boleto; é um negócio que precisa ser financiado, mas não a qualquer custo. Não se pode vilipendiar a profissão.” Essa foi uma das frases de impacto proferidas por Dal Marcondes, durante sua palestra na série “O futuro do Jornalismo e o Jornalismo do futuro”, concebida pela APJor.

Diretor-proprietário do site Envolverde, que cobre meio ambiente há 30 anos, e conselheiro da APJor, Marcondes reforça que a independência do jornalismo é indissociável da sua sustentabilidade econômica, algo que sofreu profunda transformação nos últimos anos com a concentração de anúncios nas mãos de poucas plataformas digitais. Segundo ele, Facebook, Instagram, TikTok e Google se apropriaram de 90% da receita publicitária das publicações do planeta, deixando para a produção do jornalismo menos de 7% dos recursos originados por esse segmento, que, historicamente, dividiu com o setor de assinaturas a sustentação econômica do setor.

Darlene Menconi, presidente da APJor, e Dal Marcondes

Isso só foi possível graças à inteligência artificial e seus algoritmos, que permitiram oferecer aos anunciantes uma segmentação “absurda”, que a mídia convencional jamais alcançou. Assim, grandes anunciantes e agências abandonaram o financiamento de veículos jornalísticos, deixando o jornalismo regional e especializado subfinanciado.

Para ele, a escassez de um jornalismo financiado e independente empurra a sociedade para um caminho de desinformação, o que é muito perigoso. “O que se chama de fake news nada mais é do que mentiras; é um contrassenso chamá-las de notícia. E isso faz com que pessoas passem a defender o indefensável. O espaço midiático fica poluído e essas notícias mais confundem do que ajudam as pessoas a compreender a realidade.”

O diretor da Envolverde diz que os profissionais da área precisam aprender gestão e empreendedorismo ‒ uma vez que as faculdades ainda formam jornalistas apenas para serem empregados ‒ e propõe quatro ações para viabilizar o setor:

1. Criação de fundos de fomento ‒ com regras públicas e transparentes ‒, para financiar projetos e startups, permitindo estabilidade e reportagens de relevância.
2. Uso de emendas parlamentares para financiar projetos jornalísticos de qualidade e interesse público.
3. Combinar publicidade segmentada, assinaturas, eventos pagos, filantropia e editais públicos e privados.
4. Lutar por políticas que reconheçam o jornalismo como bem público e exijam transparência algorítmica.

 


* Moacir José é conselheiro da APJor

Para saber mais:
• Íntegra da palestra de Dal Marcondes no canal da APJor no YouTube: Jornalismo: modelos de financiamento, riscos e oportunidades
Como financiar o jornalismo nativo digital? Conheça alguns caminhos.

Foto de APJor

APJor

A Associação Profissão Jornalista (APJor) é uma organização sem fins lucrativos, criada em 2016 por um grupo de 40 jornalistas, com o objetivo de defender o jornalismo ético e plural e valorizar o papel do jornalista profissional na sociedade brasileira.