Crédito da imagem: Ondulações de areia formadas pelo vento em Southbourne, subúrbio costeiro no Sul da Inglaterra. Fotografia extraída de Waves of Sand and Snow (1914), de Vaughan Cornish. Public Domain Image Archive.
Por Moacir José*
Em 2023, quase metade dos 5.569 municípios brasileiros não possuía uma única fonte de informação local, o que significa que entre 27 e 28 milhões de pessoas (25% da população economicamente ativa, de 108 milhões) viviam nos chamados “desertos de notícia”. Os dados são do Atlas da Notícia daquele ano e foram apresentados pelo jornalista Carlos Castilho em palestra da série “O futuro do Jornalismo e o Jornalismo do futuro”, uma iniciativa da APJor.
Castilho é mestre em jornalismo local, doutor em Engenharia e Gestão do Conhecimento, professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Para ele, esses desertos de notícias são sintoma de uma mudança profunda no ecossistema de comunicação, em decorrência da extinção de veículos locais, por falta de financiamento tradicional, as publicidade, hoje controlada pelas grandes plataformas digitais.
Por outro lado, a avalanche de informações na internet gerou uma profunda insegurança noticiosa. “Hoje em dia, não reagimos mais em função da lógica; as decisões são formadas a partir de percepções, muitas vezes distorcidas da realidade, através de uma sucessão estratégica de meias verdades. Não existe fonte segura”, diz. Para complicar, construiu-se o mito de que a informação é algo descartável e que tem de ser gratuita. “As pessoas não têm consciência de que ela é um bem social”, constata.
Diante disso, ele sugere que o público não deve apenas desconfiar, mas encarar a notícia como “incompleta”, o que exige pesquisa e curadoria para preencher as lacunas informativas. Aí, entra o papel do jornalista, não mais como um ser “acima da média”, mas como um curador que estabelece uma relação de troca e identidade com o público.
Castilho descreve sua experiência à frente do projeto digital “Te Liga Canela”, que alcançou 5.000 seguidores na cidade gaúcha de 50.000 habitantes, mas que foi forçado a fechar após uma condenação judicial de R$ 16.000 por integrante da equipe. É outro fenômeno atual, o do lawfare (guerra jurídica) que tem sido usado “de forma assustadora” para neutralizar jornalistas por meio de processos em série.
Mesmo assim, ele acredita que a solução para a crise de sustentabilidade do jornalismo passa por um outro tipo de financiamento. Castilho propõe a criação de uma taxa municipal, aprovada pelas câmaras de vereadores dos municípios e gerenciada por um conselho tripartite composto por três membros da comunidade, três legisladores e três representantes da prefeitura. Essa taxa financiaria projetos jornalísticos e escolas de informação e curadoria, com base nas necessidades informativas reais daquela população.
*Moacir José é conselheiro da APJor.
Para saber mais:
• Íntegra da palestra de Carlos Castilho no canal da APJor no YouTube: Desertificação, um sintoma da crise no Jornalismo local
• Artigo de Carlos Castilho: Por que precisamos de uma política pública de informação