Por Darlene Menconi*
A Unesco considera o Jornalismo um bem público, pois tem o potencial de facilitar o processo civilizatório. Mas será que a imprensa cumpre esse papel? Pelo menos por aqui, parece que não: a credibilidade da imprensa brasileira caiu de 62% em 2015 para 42% em 2025. Para o jornalista Luciano Martins Costa, que inaugurou a série de palestras promovida pela APJor para discutir os rumos do Jornalismo, a mídia hegemônica, com seu viés neoliberal, defende privatizações e redução do Estado sem considerar os impactos sociais. “São a reserva moral do fascismo, essa insanidade tornada pública”, disse Costa. Em sua avaliação, veículos populares têm mais credibilidade por estarem próximos da realidade do público.
Um dos criadores do projeto Estadão Multimídia e do Observatório da Imprensa, em novembro de 2025, na Livraria Tapera Taperá, no centro de São Paulo, ele fez a palestra inaugural do ciclo de debates Jornalismo do Futuro e o Futuro do Jornalismo, uma iniciativa da APJor para discutir os rumos da profissão que exercemos. Costa iniciou a carreira de jornalista aos 24 anos como redator das enciclopédias da Editora Abril, convivendo com intelectuais protegidos pela editora durante a ditadura militar, como Maria Adelaide Amaral, Eduardo Galeano e Eduardo Alves da Costa.
Escreveu para a imprensa corporativa brasileira, criou peças de teatro, apresentou programas em rádios e emissoras de TV, deu aulas e palestras, e publicou livros como O mal-estar na globalização, premiado em 2005 como melhor ensaio pela União Brasileira de Escritores; O Diabo no poder, sobre as eleições de 2018; e Escrever com criatividade, metodologia que desenvolveu na juventude, como voluntário na Casa de Detenção de São Paulo. Também publicou os romances As razões do lobo e A intimidade da orquídea, entre outros. Hoje, ele se define como “avô profissional” e pesquisador.
Novas tecnologias e crime organizado

Para Costa, a inteligência artificial pode ser uma ferramenta valiosa para resgatar fatos e investigar idiossincrasias, desde que usada com profundidade e senso crítico. Como exemplo, o jornalista citou a chacina do Jacarezinho, em 2021, na qual a IA revelou informações sobre um policial morto na operação e um contrabando de fuzis para milícias ligadas a grupos políticos. “Dados que foram ignorados pela grande mídia, que focou apenas na narrativa dominante, sobre traficantes”, disse ele. Além disso, “os jornalistas utilizam IA para criar um suposto ‘humor do mercado’, alinhado aos interesses editoriais”.
“Na imprensa, o foco recai sobre os favelados, enquanto a maior parte da receita do crime vem de associações com o poder público e empresas de serviço. No Brasil, ter passagem pela polícia muitas vezes depende apenas da cor da pele ou da vestimenta.”
Acrescentou que a imprensa costuma ignorar relações entre forças policiais e crime organizado, frequentemente criminalizando a periferia, e defendeu um jornalismo equilibrado, com investimento em tecnologia e pessoas, voltado para a comunidade e com funções educativas, sem meias-verdades e sem manipulação de informações econômicas. Tratado como protagonista político, disse, o mercado é parte de uma rede frequentemente conectada ao crime organizado, como no caso do Banco Master.
Lições do Master

Observou que, nesse caso, há lições a extrair para a imprensa. A primeira grande lição é que “a imprensa não quer saber” de investigar o Master, porque essa investigação revelaria que o chamado “mercado” funciona, muitas vezes, como uma rede criminosa. O caso “evidencia a complexidade das atuais estruturas financeiras, nas quais bancos e fintechs se multiplicam em milhares de ramificações e microbancos de um homem só”. O uso de coaches financeiros online, afirmou, seria uma estratégia para captar investimentos e fragmentar responsabilidades contratuais. O Banco Central não tem mecanismos para delimitar ou monitorar o alcance dessa rede de agentes financeiros.
Outra conclusão: as grandes operações de privatização, que chamam muita atenção, estão sendo substituídas por redes de revendedores e influenciadores, permitindo ao mercado acessar recursos públicos de forma mais discreta. Para Costa, o jornalismo deve ser um exercício constante de busca pela verdade e enfrentamento das estruturas que impedem o desenvolvimento social do país. E quem desfruta de privilégios – como ser alfabetizado, ter acesso a livros, estudar idiomas e viajar – tem a responsabilidade ética de agir em prol dos outros. Destacou quatro pontos para um Jornalismo possível:
- O Jornalismo do futuro deve se distanciar da frente ideológica, evitar o debate fragmentado, questionar o sistema como um todo e suas contradições.
- Trabalhar a educação política, reafirmando valores fundamentais da sociedade.
- Praticar o Jornalismo afirmativo em favor de um processo civilizatório.
- Compreender o espírito das mudanças tecnológicas e usá-las em favor do progresso humano.
* Darlene Menconi é presidente da APJor.
Link para a íntegra da palestra de Luciano Costa: https://www.youtube.com/live/JGcsshFjULk?si=AaqCIuDoWKTyLFMi