Mesmo sem incentivos, diminuem os desertos de notícias no Brasil

O resultado do censo realizado em 2023 mostrou uma redução de 8,6% no total de cidades sem canais de notícias locais. São 256 municípios a menos na conta, ainda assim, 26,7 milhões de brasileiros vivem sem acesso a informações sobre o lugar onde vivem

Por Redação

Pela primeira vez, desde que começou a mapear o jornalismo local no Brasil em 2017, o Atlas da Notícia registrou uma virada: sua sexta edição constatou menos desertos de notícias do que cidades com ao menos um veículo jornalístico para servir a sua população. Por que isso é tão importante? Como bem observa a própria pesquisa: “Sobretudo numa sociedade tão castigada pela desinformação, a sobrevivência do jornalismo local é a sobrevivência da própria democracia e o mapeamento dos desertos de notícias é também o mapa dos lugares onde a democracia corre mais riscos”.

Nesta edição, o Atlas da Notícia torna possível ver todos os principais dados em uma única página, facilitando a pesquisa para acadêmicos, pesquisadores e jornalistas, que terão acesso exclusivo a uma plataforma que permite o cruzamento com diversas bases de dados. A solicitação para usar a nova ferramenta está disponível desde 14 de agosto de 2023 no site do Atlas.

A equipe de pesquisadores é coordenada por Sérgio Lüdtke, presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), e Sérgio Spagnuolo, diretor do Núcleo Jornalismo e fundador da agência de dados Volt Data Lab, responde pela área de dados e tecnologia do Atlas. As ilustrações são de Méuri Elle.

A APJor tem publicado reflexões sobre jornalismo local e agora reproduz aqui, com autorização, os resultados da pesquisa do Atlas da Notícia. Links no final desta matéria.

O resultado do censo realizado em 2023 mostrou uma redução de 8,6% no total de desertos de notícias. São 256 municípios a menos na conta – ainda assim, restam 2.712 cidades e 26,7 milhões de brasileiros que nelas habitam sem acesso a notícias sobre o lugar onde vivem.

A redução dos desertos foi identificada num esforço coordenado com 303 colaboradores voluntários e estudantes de 80 organizações e universidades que se dedicaram nos últimos meses a encontrar veículos de comunicação em lugares onde não havia registro de atividade jornalística e a atualizar um banco de dados de 14.444 organizações e iniciativas jornalísticas.

A expansão do digital e a identificação de rádios comunitárias que produzem conteúdo noticioso impulsionou a redução dos desertos. Em comparação com o mapeamento anterior, de 2022, o Atlas da Notícia acrescentou mais 575 iniciativas nativas digitais e 239 rádios a sua base de dados.

Agora, há 5.245 veículos digitais e 4.836 rádios oferecendo notícias em seus canais. Juntos, os dois meios representam 70% do total de veículos mapeados pelo Atlas em 2023.

Há boas notícias vindas também do Norte, onde 95 municípios deixaram de ser desertos de notícias, e do Nordeste, que tem agora 87 municípios a menos nessa lista. As duas regiões também foram as que menos perderam cidades para a lista de desertos. No Nordeste, somente duas cidades perderam seu único veículo de comunicação local, no Norte, nenhuma.

Mesmo assim, é o Nordeste que tem o maior número de desertos. Nesta edição do censo, o Piauí ultrapassou o Rio Grande do Norte como a unidade da federação com mais desertos em proporção ao número de cidades. O estado tem 224 municípios e os habitantes de 172 deles, 76,8%, não têm nenhum veículo de comunicação local a seu serviço. No Rio Grande do Norte, 9 cidades deixaram de ser desertos. Ainda assim, dos 167 municípios, 128 são desertos de notícias, o que representa 76,6% do total de municípios.

Pará e Pernambuco foram os estados com mais municípios deixando a lista dos desertos de notícias. Em 36 cidades de cada um desses estados, o Atlas identificou veículos de comunicação em atividade que não constavam na sua base. O Rio de Janeiro é ainda o estado com menor número de desertos, embora esse número tenha quase dobrado desde o último levantamento. Em 2022 eram 4 os desertos de notícias no estado fluminense, hoje são 7.

Fechamentos

O Atlas da Notícia também acompanha o fechamento de veículos. Neste ano foram identificadas mais 39 organizações que encerraram as suas atividades. Com essas, registra-se um total de 942 organizações da base de dados que foram fechadas nos últimos anos.

Os veículos impressos lideram essa triste estatística, com 532 fechamentos, mas há também na lista 317 iniciativas online, o que demonstra a fragilidade de parte desses empreendimentos.

Dos veículos digitais mapeados, 1.671 são blogs ou operam diretamente em plataformas de redes sociais. Esse número representa 32% dos veículos digitais mapeados pelo Atlas. Ainda que o tamanho do empreendimento não determine a qualidade de seu conteúdo, o jornalismo feito por empreendedores individuais tem alguns desafios a mais para sustentabilidade num ambiente em que a busca por diversidade de fontes de financiamento parece ser a regra.

Capacitação para gestão, experimentação de novos modelos de financiamento e políticas públicas que incentivem o surgimento e a sobrevivência de veículos de comunicação local são necessárias e urgentes para a garantia de um ambiente de boa oferta de informação de interesse público.

 


 

Fonte: Atlas da Notícia

Ilustração: Do site da Revista Arco, da UFSM

Ver também:

Porque precisamos de uma política pública de informação

 

APJor

APJor

A Associação Profissão Jornalista (APJor) é uma organização sem fins lucrativos, criada em 2016 por um grupo de 40 jornalistas, com o objetivo de defender o jornalismo ético e plural e valorizar o papel do jornalista profissional na sociedade brasileira.