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Coletânea revela e valoriza vivências de jornalistas das periferias de São Paulo

O trabalho relata as experiências de cinco jovens da periferia da Grande São Paulo na busca por um fazer jornalístico que retrata o cotidiano de pessoas e coletivos responsáveis por importantes transformações sociais em seus territórios. Veja na resenha de Flávio Carrança

Por Flávio Carrança*

Publicado pela editora FiloCzar,  o livro Você Repórter da Periferia: Visões e Vivências do Jornalismo nas Periferias é uma coletânea de artigos que relata as experiências vividas pelos quatro integrantes e uma ex-integrante do coletivo de comunicação Desenrola e Não Me Enrola durante a realização do treinamento Você Repórter da Periferia, programa dedicado a formação de jovens, em grande parte negros e negras, de diferentes territórios das periferias de São Paulo e da Região Metropolitana da cidade.

Com duração de sete meses, o projeto foi criado em 2013 e já totaliza cinco edições, pelas quais já passaram centenas de jovens de bairros como Jardim São Luís, Jardim Aracati, Vila Missionária, Grajaú e Paraisópolis (zona sul), Guaianazes, Itaquera e São Mateus  (zona leste) e os municípios de Santo André, São Bernardo do Campo, Carapicuíba, Diadema, Suzano, Ferraz de Vasconcelos e Guarulhos.  O objetivo, ficamos sabendo logo na Introdução, é oferecer “à juventude periférica a oportunidade de estabelecer um contato direto com o patrimônio cultural das comunidades de São Paulo, por meio de oficinas teóricas e práticas desenvolvidas pelo coletivo sobre o fazer jornalístico nas periferias”.

Em cinco artigos distribuídos ao longo de 92 páginas, o(a)s jornalistas  Ronaldo Matos e Thais Siqueira, as estudantes de jornalismo Evelyn Vilhena e Júlia Cruz e a fotógrafa e designer Flavia Lopes relatam suas trajetórias de vida e explicam como a relação com os movimentos culturais enraizados nas periferias de São Paulo inspirou “a produção de um jornalismo que retrata o cotidiano de pessoas e coletivos que promovem importantes transformações sociais em seus territórios’’,  como afirmam na introdução da coletânea.

Identidade negra e periférica

O coletivo Desenrola e Não Me Enrola surgiu de um processo mais amplo de expansão de coletivos culturais, que tem, possivelmente, como marco inicial, a criação em 2001 da Cooperifa, movimento cultural que há 20 anos organiza atividades poéticas no bar do Zé Batidão, na periferia de São Paulo. Esse movimento, que cresceu e se diversificou, incorporando ou gerando coletivos voltados para variadas esferas artísticas, como dança, cinema, teatro, sem falar no hip hop, foi o possível impulso inicial desse processo, lá pelo início dos anos 1990.

Não por acaso, no texto que abre a coletânea, Ronaldo Matos, um dos idealizadores, conta sua história: um  menino negro que, em 1999, aos 12 anos de idade, cursava a oitava série  de uma escola pública e  ajudava o pai em uma banca de jornal, onde graças à leitura constante dos periódicos descobre a importância da informação de qualidade. Não deu outra, depois de seis anos trabalhando em chão de fábrica, iniciou, em 2011, o curso de jornalismo, fase também em que se conectou com os saraus literários.

No segundo ano do curso, aproxima-se de uma colega de classe, Thais Siqueira, que descreve como uma mulher engajada em produzir jornalismo independente e que estava à procura de parcerias para implantar um novo projeto por meio de um blog jornalístico. Como resultado desse encontro (spoiler: encontro que acabou resultando em casamento), eles iriam criar, em 2013, o coletivo Desenrola e Não Me Enrola, inicialmente um blog com reportagens sobre iniciativas culturais das periferias feitas por Ronaldo e Thais nos finais de semana.

 

Cenas de atividades dos reporteres da periferia

“Os caminhos dos jovens

das periferias até a universidade

nascem ‘com os ponteiros atrasados’

e não é fácil igualar”

 

No segundo artigo é Thais Siqueira quem relata as dificuldades (muitas) pelas quais passou, antes do Desenrola decolar e ressalta a importância de políticas como o Prouni (Programa Universidade para Todos) e o FIES (Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior), segundo ela, fundamentais para que jovens das periferias que não têm e nem teriam condições de arcar com os gastos dos estudos possam estudar e concluir o seu curso. Nas palavras de Thais, os caminhos dos jovens das periferias até a universidade nascem “com os ponteiros atrasados” e não fácil igualar.

Segundo ela, muitos jovens que passam pelo Você Repórter revelam, no início do curso, inúmeras dificuldades: ingresso no mercado de trabalho, aprendizagem nos ensinos médio e superior e problemas em sua base familiar, em meio às quais acabam naturalizando a falta de compreensão sobre questões de raça, gênero e classe, fatores que impactam diretamente a identidade cultural da juventude periférica e a maneira como eles se colocam no mundo. “Eu mesma, enquanto jovem – escreve – , passei por vários processos complexos para compreender minha identidade de mulher negra e periférica. Quando consegui me encontrar, descobri o valor da autoafirmação e o meu lugar de fala”.

Colhendo frutos

Talvez seja oportuno dizer que – como revelam autor e autoras da coletânea – foram políticas públicas de incentivo à produção cultural que tornaram possível (e ainda é assim) o surgimento e expansão do grande número de coletivos que produzem cultura e  informação nas periferias de São Paulo.  E, falando em grande número, além de diversos projetos próprios que desenvolve, o Desenrola E Não Me Enrola também integra, como informa o livro, a Rede de Jornalistas das Periferias, que tem como principal objetivo disseminar a informação produzida pelas periferias e para as periferias.

Em fevereiro de 2017, no lançamento da Rede, faziam parte dela os coletivos Nós, Mulheres da Periferia, Desenrola E Não Me Enrola, DoLadoDeCá, Historiorama: Conteúdo & Experiência, Mural – Agência de Jornalismo das Periferias, Periferia em Movimento, DiCampana, Imargem e Alma Preta (links para cada página desses coletivos listados abaixo). O item Sobre da página do Facebook da Rede de Jornalistas das Periferias apresenta os parâmetros políticos que delimitam sua atuação:

  • A nossa rede acredita na potência e importância de que as vozes das próprias periferias sejam as protagonistas no conteúdo jornalístico sobre essas regiões da cidade, constituídas historicamente em condições sociais de desigualdade de raça, classe e gênero, que se reproduzem, inclusive, no ambiente profissional da comunicação.
  • A nossa rede afirma em sua constituição a defesa dos direitos dos moradores das periferias de São Paulo e apoia grupos de comunicação periféricos de todo o país, compreendendo os contextos específicos de cada região, além de outras iniciativas que valorizem e mobilizem as minorias em prol de uma sociedade mais justa, plural e democrática para todos os cidadãos

Foi também dessa articulação que surgiu a inciativa de realização, em 2019, da pesquisa Fórum Comunicação e Territórios em Números, que mapeou 97 iniciativas de comunicação nas periferias da cidade de São Paulo, metade delas na zona sul , 11% na zona norte, 9% na leste, 5,4% multirregiões, 4% no centro e 2% na zona oeste. O levantamento apurou que das 56 iniciativas de todo território da cidade que atuam em um formato ou mais, 34 veiculam conteúdo online, 21 trabalham com impresso, 25 nas redes sociais, 26 veiculam conteúdo audiovisual, 11 radiofônico e 6 outros (como cursos, cineclubes, rodas de conversa, exposições).

Entre os 20 entrevistados para o levantamento, 63% fizeram faculdade na área de comunicação e 62 % estudaram com apoio de políticas públicas. Entre eles, 80% não tinham a iniciativa como único trabalho, sendo a falta de tempo apontada como o principal desafio, superando a falta de dinheiro. Os entrevistados se definem como 48% comunicadores populares, 38% empreendedores sociais, 19% jornalistas, 10% líderes comunitários e 38% outros.

Dica: Descobri o livro Você Repórter da Periferia: Visões e Vivências do Jornalismo nas Periferias passeando pelos corredores eletrônicos da Feira Virtual do Livro das Periferias, que aconteceu em dezembro de 2020, mas cujo site permanece ativo, com links para as diversas editoras desses territórios.

* Flávio Carrança é jornalista e associado da APJor

Serviço:

Título: Você Repórter da Periferia: Visões e Vivências do Jornalismo nas Periferias

Autora(e)s: Evelyn Vilhena, Flavia Lopes, Júlia Cruz,  Ronaldo Matos, Thais Siqueira

Editora: FiloCzar

Preço: 30,00

Saiba mais sobre informação e cultura nas periferias:

http:/nosmulheresdaperiferia.com.br/

Desenrola E Não Me Enrola

DoLadoDeCá

Historiorama: Conteúdo & Experiência

Mural – Agência de Jornalismo das Periferias

Periferia em Movimento

DiCampana

Imargem

Alma Preta

Fórum Comunicação e Territórios em Números

APJor

APJor

A Associação Profissão Jornalista – APJor é uma organização nascida do Movimento Jornalistas Pró-Conselho, criada na assembleia de 22 de outubro de 2016, na Câmara Municipal de São Paulo, com a presença de 40 jornalistas.

Uma resposta

  1. Boa escolha do Flávio Carrança. Há, pelo Brasil afora, muitas iniciativas como as que aparecem na resenha dele, que se limita a São Paulo e região. Uma delas em Canelas, no Rio Grande do Sul, em que o jornalista Carlos Castilho é o único jornalista de profissão. Todos os demais participantes são, talvez, comunicadores populares (vou perguntar a ele pois não sei a resposta para tal pergunta). Uma pesquisa bem interessante é saber quais e quantos desses jovens (a grande maioria é de jovens) estão fazendo jornalismo e quantos estão fazendo outro tipo de comunicação. Se você me perguntar qual a diferença eu respondo, aqui, que aí a conversa vai ficar mais comprida. Entre outras coisas porque há muitos estudos procurando resposta a essa pergunta, no momento. Um deles é o meu, que desenvolvo na forma de uma tese de pós-doutorado no programa de pós graduação em jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, com os professores Jacques Mick e Samuel Lima.

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