Por Janes Rocha (*)
“A bola misteriosa”, ilustração extraída do livro vitoriano Magic , com o subtítulo “Stage Illusions and Scientific Diversions, including Trick Photography”. Crédito: Public Domain Image Archive.
É preciso pensar o jornalismo menos como produto final e mais como código-fonte. Isso significa que a produção jornalística não pode ficar restrita a um formato só porque nem sempre o que funciona em um canal, funciona no outro e é preciso encontrar o público onde quer que ele esteja consumindo a notícia.
Essa é a sugestão de Natasha Felizi, diretora do programa de Jornalismo e Mídia do Instituto Serrapilheira, para enfrentar o desafio existencial dos veículos de comunicação que padecem, há mais de duas décadas, com dificuldades de tráfego e perda de faturamento com publicidade para as plataformas de redes sociais, situação agravada com o avanço da Inteligência Artificial (IA).
Felizi foi uma das especialistas na mesa-redonda “Fluxo do Ecossistema de Desinformação”, realizada em 15 de julho dentro da programação científica da 77ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), evento realizado no campus Dois Irmãos da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), no Recife.
Bacharel e mestre em Literatura Russa e Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Felizi se dedica no Serrapilheira a buscar soluções para a divulgação da ciência e o combate à enxurrada de fake news, desinformação e negacionismo que tem atingido o campo científico, não só no Brasil, mas em todo o mundo.

Ciência Suja
Um dos mais bem-sucedidos projetos apoiados pelo Serrapilheira é o podcast Ciência Suja, criado para investigar médicos que receitaram cloroquina na pandemia e que depois expandiu suas investigações para outros temas como anabolizantes e as redes antivacinas.
“Existem alternativas para essa massificação total das plataformas e a gente precisa enxergar valor em tudo isso, como indivíduos e como sociedade”, comentou Felizi. Entre as opções, segundo ela, estão reportagens colaborativas, novos modelos de negócio e políticas públicas de fomento.
O Serrapilheira tem testado modelos colaborativos em que o conteúdo de uma investigação jornalística é distribuído por meio de vários canais (podcasts, revistas, jornais, portais e influenciadores) que não envolvem publicidade. “Temos achado que essa é uma forma de fazer render os recursos para financiar a reportagem investigativa, que é cara, não dá mais pra publicar em um único veículo”, disse a executiva.
Em defesa da regulação
A mesa-redonda, coordenada pelo professor titular de Bioquímica e ex-reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Carlos Alexandre Netto, era composta, além de Felizi, por representantes de instituições que apoiam o Jornalismo no combate à desinformação: os jornalistas Ana Paula Morales, sócia e fundadora da Agência Bori, e Daniel Stycer, editor do site especializado em ciência The Conversation Brasil; e a assistente social Tainá de Paula Alvarenga, da Redes da Maré.
O objetivo do encontro foi debater a influência das redes sociais na produção, disseminação e consumo de informação no campo científico e os caminhos para combater a desinformação. A necessidade de regulação das plataformas foi defendida por todos os participantes.
Morales apresentou dados preliminares de um relatório da Agência Bori mostrando o interesse crescente da desinformação, fake news e negacionismo como tema de pesquisas científicas. O estudo apontou que, de 2015 a 2024, foram produzidos quase 168 mil artigos científicos em todo o mundo sobre estes assuntos, número que praticamente triplicou desde a pandemia. Os Estados Unidos são a origem de um terço dessa produção, enquanto o Brasil ocupa a 11ª posição.
Alvarenga observou que o combate à desinformação traz desafios potencializados pelo racismo estrutural e pela falta de apoio do poder público para a Redes da Maré. Organização da sociedade civil que nasceu da mobilização comunitária nos anos 90, a Redes da Maré tem a missão de garantir os direitos da população residente nas 15 favelas que compõem o complexo da Maré (RJ), que tem mais de 140 mil habitantes.
Um dos principais cases de comunicação das Redes da Maré, a vacinação durante a pandemia de Covid-19, atingiu mais de 34 mil pessoas. Para driblar as fake news e o negacionismo contra o imunizante, as equipes foram de porta em porta, numa grande mobilização, monitorando os resultados e impactos da vacinação no universo de moradores, ao longo do tempo. “Isso foi um marco para o nosso trabalho e um marco também de constituição de um eixo direto à saúde, que até então ainda não estava consolidado”, explicou Alvarenga.
Para Stycer, os caminhos para superar a desinformação passam pela regulação das plataformas, pela “educação midiática” – o ensino desde a infância de como identificar fontes confiáveis – e também por maior investimento em Jornalismo para checar fatos.
(*) Editora assistente do Jornal da Ciência e conselheira suplente da APJor