Jornalistas na mira do governo de Israel

Jornalistas (e o jornalismo independente) na mira do governo de Israel

“Ser jornalista em Israel é quase tão perigoso quanto ser jornalista no Brasil”, diz o sociólogo Michel Gherman, da UFRJ, em entrevista exclusiva à APJor. Agora, sem Netanyahu, ele acredita que pode melhorar, mas ainda assim muito devagar. Veja na reportagem de Flávio Carrança

Por Flavio Carrança*

Em 15 de maio, Israel derrubou o edifício de 12 andares onde funcionavam os escritórios das agências de notícias Associated Press (AP) e Al Jazeera, entre vários outros veículos jornalísticos internacionais. Este teria sido o terceiro prédio de agências noticiosas destruído na faixa de Gaza desde abril, mas a organização Repórteres Sem Fronteira (RSF) acrescenta que, em dez dias, o exército de  Israel mirou e destruiu nada menos que 23 mídias palestinas e internacionais. A RSF está consultando promotores do Tribunal Penal Internacional para saber se o ataque à mídia em Gaza constitui ou não um crime de guerra. A Organização das Nações Unidas (ONU) já está investigando o atual conflito.

Prédios residenciais também foram destruídos e num deles morreu, a 12 de maio, a jornalista palestina Rema Saad, 30 anos, grávida de quatro meses, e seu filho Zaid, 4 anos. O marido está na UTI e a filha Mariam, 2 anos, ainda está desaparecida nos destroços do edifício. Além disso, a proliferação de prisões de jornalistas e a destruição de seus instrumentos de trabalho parece indicar uma estratégia deliberada do governo israelense para calar a imprensa.

Esse foi o caso de Givara Budeiri, veterana correspondente da Al Jazeera, devidamente credenciada pelo governo israelense. Na terça-feira, 8 de junho, quando cobria uma manifestação no bairro muçulmano de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, Budeiri foi brutalmente detida por policiais israelenses (foi hospitalizada com um braço quebrado). Os policiais também destruíram a câmera do cinegrafista que a acompanhava. A repórter só foi liberada no dia seguinte sob uma condição: que não voltasse a trabalhar em Sheikh Jarrah por 15 dias.

O epicentro dos atuais conflitos é justamente Sheikh Jarrah, que confina com a Cisjordânia, um território palestino governado pela Al Fatah (que foi eleita), mas controlado por Israel. Tudo começou em abril, quando um grupo de colonos judeus ortodoxos obteve na Justiça o direito de despejar os residentes palestinos do bairro e ocupar as casas. Com ajuda da polícia, que faz vista grossa para a violência dos colonos contra os residentes, passaram a jogar famílias inteiras no meio da rua – gente que vivia ali desde que, ainda nos primórdios do aparato repressor israelense, seus pais ou avós foram expulsos de suas terras e aldeias.

O grupo Hamas, cujos líderes também foram eleitos pela população local para governar a faixa de Gaza, outro território palestino controlado por Israel, pediu que a polícia se retirasse de Jerusalém Oriental ou pelo menos reprimisse os ataques de colonos judeus a residentes palestinos. Israel ignorou o pedido. Gaza, então, disparou mais de quatro mil foguetes contra o território israelense e Israel bombardeou centenas de alvos em Gaza, com o pretexto de que eram alvos ligados ao Hamas. Até agora, o placar é o habitual nesses casos: mais de 250 mortos em Gaza e 12 mortos em Israel.

Em entrevista exclusiva ao site da APJor, o sociólogo brasileiro Michel Gherman, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que o governo de Benjamim Netanyahu, “nesse aspecto, é muito parecido com o de seu amigo Jair Bolsonaro”: Netanyahu de fato elegeu a imprensa como inimiga, inclusive veículos que se proclamam sionistas, como o diário israelense Haaretz. Gherman vê com cauteloso otimismo a mudança de governo que ocorreu neste domingo (13) em Israel, com a formação de um ministério ainda liderado por um político de direita, Naftali Bennett, porém mais diverso no espectro político-ideológico. O professor prevê uma lenta melhora da liberdade em Israel – e será lenta por causa dos grandes estragos da gestão de Netanyahu, que ocupava o cargo de primeiro-ministro desde 2009. Gherman é também coordenador do Núcleo de Estudos Judaicos da UFRJ e  diretor acadêmico do Instituto Brasil Israel (IBI).

APJor – Como o senhor avalia essa estratégia de silenciamento da imprensa no contexto do conflito Israel-Palestina?

Michel Gherman – Soube de apenas dois prédios de mídia [destruídos] em Gaza. O prédio derrubado no centro da Cidade de Gaza não era qualquer prédio, era uma torre com 12 andares, abrigando um escritório da AP e um escritório da Al Jazeera. O governo israelense disse que o edifício abrigava também um escritório de ciber-terrorismo,  financiado pelo Hamas. Essa narrativa começou a desmoronar quando Roni Bergman, repórter do jornal israelense Yediot Achronot e correspondente do The New York Times em Israel, consultou suas fontes nas forças armadas israelenses, entre outras, e constatou que não foi um erro de alvo, mas de análise: a derrubada do prédio seria uma demonstração da força de Israel, mas acabou sendo uma demonstração de sua fraqueza. De certa forma, o episódio mostra a tentativa do governo israelense de silenciar aqueles que pretendem passar informações de dentro de Gaza. Na semana passada, enfim, setores do serviço secreto de Israel e do exército de Israel reconheceram que foi uma decisão equivocada – o que beira o ridículo, você derruba uma torre e diz que foi sem querer. Fazer o que agora? A torre está derrubada.

Acho até mais grave o que está acontecendo em Jerusalém, porque a gente está falando de repórteres detidos efetivamente no processo de feitura do trabalho. Gente fotografando e sendo presa com a máquina fotográfica na mão, gente conversando com fontes e sendo presa nesse processo. Acho que aqui tem uma questão muito séria. Veja a prisão dessa jornalista Givara Budeiri, vestindo colete com a palavra “imprensa” e libertada no dia seguinte com uma condição: permanecer 15 dias fora de Sheikh Jarrah. Aqui não tem outra desculpa não, é tentativa de silenciamento mesmo de jornalistas no processo de trabalho, ou seja, estão sendo presos em campo. A Associação Israelense de Jornalistas está fazendo uma campanha contra isso, mas a diferença é que o governo quer transformar em inimigos os jornalistas palestinos de redes árabes.

APJor – Esse tipo de comportamento é específico do governo Netanyahu ou já existia em momentos anteriores?

GhermanNas décadas de 1950 e 1960, havia uma relação conflituosa com a imprensa, e não somente com a imprensa estrangeira. A imprensa israelense também era vista com maus olhos por alguns governos. Tem a fundação do jornal HaOlam HaZeh, em 1946, que modifica essa perspectiva, trazendo a ideia de que é possível um jornalismo absolutamente independente em Israel, mas estou me referindo a 50 anos atrás. O Benjamim Netanyahu dos últimos dois anos é quem, em última instância, começa a trabalhar com a ideia de que é preciso combater os jornalistas. E não acho que ele está falando só dos jornalistas árabes. Os piores inimigos do  Bibi [apelido de Benjamim em hebraico] são os jornalistas israelenses, é a eles que se refere como inimigos, trata como traidores. Há uma tentativa real de transformação do jornalismo de Israel em jornalismo oficial. O Bibi criou um jornal, o Israel Hayom, para servir de porta-voz dele. Netanyahu mexe com determinadas companhias públicas de jornalismo para fazer com que sirvam como “corneta” dele.  Ou seja, o que está acontecendo com os palestinos é um pouco pior do que acontece com os israelenses, já que os palestinos têm menos direitos do que os israelenses, mas a perseguição do Netanyahu nos últimos três anos é uma perseguição contra jornalistas e contra o jornalismo livre em geral.

APJor – Tenho colegas que associam essa estratégia ao sionismo, mas o senhor parece associá-la especificamente a Netanyahu.

Gherman Não sei o que é sionismo para seus colegas. Como eu estudo o sionismo, é difícil dizer, até porque esse jornal de que falei, o HaOlam HaZeh, que criou uma revolução liberal no jornalismo em Israel, é um jornal da esquerda sionista. Talvez eu tenha exagerado, acho que não é só o Netanyahu. Tem um discurso de uma certa direita sionista, com rasgos autoritários muito claros, da qual Netanyahu é a liderança de frente, que está sendo o elemento fundamental para a perseguição aos jornalistas israelenses e palestinos. Netanyahu não pergunta para os jornalistas se eles são sionistas ou não, ele trata todos os jornalistas como inimigos. Por exemplo, o Haaretz, que é o jornal mais importante de Israel hoje, tem como editor-chefe Aluf Benn, que é de uma família sionista com 150 anos de tradição e é tratado por Netanyahu como inimigo da nação. E, repito, talvez não seja só Netanyahu, talvez seja essa direita autoritária israelense, que agora está sendo desafiada no poder. Tratar como sionismo, sei lá, significa mais ou menos dizer que você é culpado dos arroubos autoritários do Alexandre Garcia, porque ele é jornalista como você. Qual é a sua relação com o Alexandre Garcia? Imagino que não seja muito boa. A relação de Aluf Benn com Yakov Bardugo, editor-chefe do diário israelense Maariv, que é pró-Bibi, também deve ser muito ruim. O fato é que há uma conexão profunda entre a direita autoritária brasileira (acho que a da Hungria e a da Polônia são a mesma coisa) e o que está acontecendo em Israel hoje. A semelhança é impressionante.

APJor – Um pouco como era o Trump?

Gherman O Trump tentou.  Acho que até criou uma imprensa trumpista, mas não conseguiu ser tão bem sucedido quanto, por exemplo, Bolsonaro no Brasil ou Netanyahu em Israel. A relação entre Israel e a imprensa é mais complexa por conta da ocupação de territórios originalmente ocupados por palestinos, mas invadidos por colonos israelenses. E os jornalistas palestinos são vítimas ainda mais do que os israelenses, porque não têm cidadania. Mas a situação dos jornalistas israelenses, árabes ou judeus, não é das melhores.

APJor – E o senhor acredita que o governo eleito no domingo, 13, vai alterar a situação? Qual é sua expectativa?

Gherman – A expectativa é boa. Infelizmente o ministro da Comunicação será um ministro que já foi do governo Netanyahu, saiu, rachou etc. e tal. É uma figura mais liberal, mais democrática, embora ainda seja uma figura de direita, mas eu acho que não vai perseguir jornalistas. Acredito que existem pessoas nesse novo governo que têm a liberdade de imprensa como um dos principais motes da sua vida política. Tem até ministro socialista, é um governo muito amplo. Acho que vai melhorar, mas vai demorar muito para melhorar porque foi muito grande o prejuízo causado por Netanyahu nos últimos 12 anos, particularmente nos últimos três, na virada autoritária dele. Ser jornalista em Israel é quase tão perigoso quanto ser jornalista no Brasil.

* Flávio Carrança é jornalista e associado à APJor. Edição de Leda Beck, jornalista e vice-presidente da APJor

Para saber mais

Do El País:

Israel tenta silenciar e confundir a imprensa estrangeira no conflito de Gaza

Do Poder360:

Da RSF:

Do Sindicato paulista, via FIJ:

Do Middle East Eye:

APJor

APJor

A Associação Profissão Jornalista – APJor é uma organização nascida do Movimento Jornalistas Pró-Conselho, criada na assembleia de 22 de outubro de 2016, na Câmara Municipal de São Paulo, com a presença de 40 jornalistas.

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