Manifestações antirracistas

Com 23% de negros nas redações, a imprensa brasileira confirma o racismo

Sem negros nas redações, a narrativa da imprensa brasileira continua reproduzindo estereótipos sobre uma população que é maioria na sociedade brasileira. Mas nunca se discutiu tanto como agora nosso racismo estrutural, diz o jornalista Flávio Carrança, em entrevista à APJor

Por Redação APJor* – Foto: Josh Hild, no Pexels

Ouça o áudio da entrevista, ou leia a matéria abaixo

 

Em maio, o assassinato de George Floyd pela polícia nos Estados Unidos desencadeou uma onda de protestos contra o racismo em todo o mundo —particularmente contra o sistemático racismo policial, lá como cá. Pandemia ou não, as ruas encheram-se de manifestantes furiosos. Na mídia do Brasil, pela primeira vez, houve algum debate sobre o racismo estrutural brasileiro, “agora elevado a um novo patamar”, segundo o jornalista Flávio Carrança, que coordena desde 2001 a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira) no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.

De acordo com a única pesquisa disponível, que data de 2012, apenas 23% dos jornalistas são negros ou pardos e raríssimos estão em cargos de chefia. Com isso, a narrativa da mídia sobre o problema ainda é articulada principalmente por brancos, que acabam reproduzindo e confirmando os estereótipos sobre a população negra brasileira, quase sempre apresentada como desonesta, com pouca propensão para o trabalho intelectual, violenta e com maior aptidão para atividades físicas.

Nesta entrevista, Carrança discute este e outros problemas da comunidade negra e do jornalismo brasileiro. A boa notícia é que “nunca se discutiu isso como nos últimos dias: nos grandes veículos do país, discute-se a presença negra nas redações, os estereótipos na cobertura, e isso é um avanço”. Quando passar o frisson das manifestações antirracistas, no Brasil e no mundo, o que restará dessa experiência?

Fred GhediniVocê coordena a Cojira desde 2001. Passados 18 anos, você vê alguma diferença com a situação de então? Sob dois aspectos: na cobertura do jornalismo diário sobre a população negra e nas questões que atingem essa população —por exemplo, a presença de pessoas negras ou pardas nas redações.

Flávio Carrança — Em relação à presença negra nas redações, não é algo fácil de mensurar, embora baste uma visita a qualquer redação de jornal ou TV para constatar que a presença de jornalistas negros era reduzida há 20 anos, talvez tenha aumentado um pouco, mas continua reduzida quando comparada à presença do negro na população brasileira. Temos um dado de 2012 que fala de 23% de jornalistas negros no Brasil, mas o Censo de 2015 constatou que a população brasileira negra é de 54%.

A visão da sociedade brasileira sobre o homem e a mulher negra é estereotipada. Nessa imagem criada, os negros são vistos como desonestos, com pouca propensão para o trabalho intelectual, violentos, com maior aptidão para atividades físicas, uma série de estereótipos. A cobertura jornalística corresponde a esses estereótipos. Recentemente, ocorreu um episódio emblemático dessa situação: a Globo News organizou um debate com jornalistas de destaque em seu quadro para discutir o racismo; mas eram seis ou sete pessoas brancas discutindo racismo! A repercussão negativa foi extremamente forte nas redes sociais e levou a Globo a fazer imediatamente um segundo debate, convocando todos os profissionais negros da casa para rediscutir o assunto.

Na cobertura das manifestações que se seguiram ao assassinato de George Floyd, o jornal Correio Braziliense deu uma capa com um retângulo vertical abaixo da dobra, onde duas manchetes se completavam: no Brasil, o combate ao fascismo ou coisa parecida; no mundo, o combate ao racismo. Dava a entender que a questão racial não estava na pauta nas manifestações brasileiras, o que qualquer pessoa que acompanhou as manifestações por aqui saberia que estava e que houve uma presença significativa dos negros, seja na convocação, seja na realização dessas manifestações.

Por que isso aconteceu? Depois que saiu aquela manchete, o Correio Braziliense ofereceu um espaço para que a Conajira —a comissão nacional que reúne as Cojiras e o Núcleo de Porto Alegre— escrevesse sobre isso. Por contingências de disponibilidade, eu acabei escrevendo. O que apontei nesse texto foi a questão do racismo estrutural, que nem sempre é percebido. Exemplo disso é que, na primeira matéria do Correio Braziliense onde se falava da manifestação, eles faziam toda uma análise das forças democráticas se reorganizando para se contrapor ao governo Bolsonaro e tudo isso estava nos dois primeiros parágrafos. A questão racial —e, ainda assim, só nos Estados Unidos— entrava no terceiro parágrafo, o que dá a dimensão da prioridade que esse tema tem para os três jornalistas que elaboraram aquele texto. Depois, o tema aparecia em outros textos que o jornal publicou e esse foi o moto que eu peguei para criticar a página. Pois o jornal dizia que a questão racial era importante inclusive no Brasil, mas a manchete escondia isso.

Everaldo GouveiaVocê falou que 23% dos jornalistas nas redações são negros. Esse número é baseado em qual estudo? E esses jornalistas estão em cargos de chefia, de comando? Existe algum processo de ascensão dos jornalistas negros nas redações? Ou tem pouca movimentação entre eles na hierarquia das redações?

Carrança — Uma coisa que a Cida Bento sempre ressalta é a importância da existência do quesito raça/cor no cadastro das empresas. Pois, para elaborar políticas de promoção da igualdade e mesmo para ter um levantamento de qual é a situação da mobilidade no interior da empresa, você precisa saber qual é a raça desse contingente de trabalhadores. Até onde sei, esse dado não existe nas empresas jornalísticas e, se existe, eu desconheço. Com relação ao número que mencionei, resultou do levantamento feito em 2012 pela Fenaj e pela UFSC. Esses 23% são jornalistas negros, sendo 18% pardos e 5% pretos. Os outros 72% são brancos. Há outros segmentos surgindo no jornalismo, veículos independentes, novos veículos da imprensa negra, da periferia, onde tenho a impressão de que a presença negra é maior. Essa é uma percepção minha. A tarefa de mudar esse quadro ainda está por fazer. Essa situação que se configurou, após o recente episódio nos Estados Unidos, colocou a discussão num novo patamar. Nunca se discutiu isso como tem acontecido nos últimos dias. Na Globo, na Folha, nos grandes veículos do país, discute-se a presença negra nas redações, os estereótipos na cobertura. Isso é um avanço. A gente precisa saber, ainda, o que vai ficar desse novo quadro.

Fábio SoaresGostaria de saber se a narrativa que é produzida nas redações mais combatem ou contribuem para o desenvolvimento do racismo estrutural?

Carrança — Não é possível se referir a um discurso único do jornalismo. A produção jornalística tem múltiplas falas. Algumas acho que contribuem para melhorar e outras evidentemente para piorar. Um exemplo do que contribui para piorar é determinado tipo de programa policial que tende a caracterizar a população negra como bandido, marginal, esse tipo de coisa. Tudo isso tem melhorado nos últimos anos, não dá para dizer que é uma situação que ficou estagnada e que nada mudou. Mas o que predomina numa determinada parte da cobertura jornalística é o discurso estereotipado, uma marca do racismo estrutural, institucional. A gente vive um momento nunca visto antes, que é o impacto dos acontecimentos nos Estados Unidos, a repercussão que isso teve no Brasil, a maneira como as empresas de jornalismo absorveram essa discussão. A impressão que eu tenho é que isso pode contribuir para colocar esse discurso da situação das empresas em um novo patamar. Mas não é possível ter segurança sobre isso, até porque nem as liberdades democráticas estão asseguradas e elas são essenciais para implementar esse tipo de coisa. A gente está em meio a um governo fascista que, por ele, acabaria com qualquer liberdade, com qualquer política de cotas. A última coisa que fez o ministro da Educação que saiu [Abraham Weintraub] foi acabar com as cotas na pós-graduação. Acho que o mito da democracia racial, que é a base da ideologia do racismo brasileiro pós-Getúlio, foi fortemente abalado. Há uma descrença na ideia, antes generalizada, de que aqui é melhor, que nós somos mais legais, que não tem racismo no Brasil. Acho que a atuação do movimento negro e as políticas públicas implementadas pelos governos do PT são sintomas de uma mudança na sociedade brasileira com relação à compreensão dessa questão do racismo no país. Agora, é difícil ter um quadro de como é que isso vai evoluir num próximo período, dada a situação extremamente conturbada que vivemos.

Leda BeckLi recentemente que Roberto Marinho, o patriarca, era negro ou descendente de negros e que daí resultariam atitudes como a reação imediata àquele incidente com o William Waack, que foi sumariamente despedido. Gostaria de saber se você já ouviu essa história. Por outro lado, quer me parecer que a Globo tem tentado incluir mais negros na telinha mesmo, não só nos bastidores. Em suma, existe uma política de inclusão na Globo?

Carrança — Até onde sei, não. A última notícia que tive com relação a inclusão na Globo foi a constituição de um grupo de profissionais negros no interior da redação no Rio, que tinha na pauta o aumento da presença negra nas redações da empresa. Essa história do Roberto Marinho para mim é novidade, eu não sabia. Mas é bom lembrar que a grande mídia brasileira e a Globo, em particular, estiveram na linha de frente do combate à implementação de políticas de ação afirmativa. O sujeito que dirige o jornalismo da Globo [Ali Kamel] escreveu aquele livro, Não somos racistas – uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor (2006), que era voltado para combater as políticas de promoção da equidade. Portanto, não acredito que haja ali uma sensibilidade maior para o problema. Mas é fato que, no vídeo, tem aumentado a presença de profissionais negros, na Globo e em outros veículos. A questão é justamente atrás das câmeras, na minha opinião, porque as redações, as posições de mando, tudo isso continua com imensa hegemonia branca. Existe uma presença negra no reportariado, mas, à medida que você sobe na hierarquia da empresa, essa presença diminui. Isso acontece em todas as empresas e acontece particularmente no jornalismo. Essa é apenas minha percepção, porque não temos números.

FSQue soluções estão ao alcance do jornalismo para proporcionar uma sociedade mais igualitária do ponto de vista étnico-racial?

Carrança — Acho que a contribuição do jornalismo é importantíssima, porque uma sociedade mais igualitária depende da democracia, depende da vigência de um regime democrático, da incorporação dos valores democráticos no conjunto da população, mais ou menos o oposto do que vem acontecendo no último período, não é mesmo? Acho que é preciso ter essa cobertura melhor e, no que se refere à questão racial, na minha opinião, isso passa pela implementação da diversidade no interior das redações. Há que se discutir os meios pra conseguir a equidade nessas instâncias. Mas penso que a contribuição do jornalismo tem esse sentido de informar adequadamente a população e não criar ilusões ou incentivar o ódio, que foi o que vimos nos últimos tempos. Ocorre que não é uma simples questão de vontade de fazer isso. É preciso que cresçam, no interior das redações, das empresas, as forças que estão em ação, os valores políticos que orientam essas forças, todo esse tipo de coisa. Acredito que a contribuição do jornalismo para melhorar essa situação é central. Não por acaso, a gente vê crescer, nos últimos tempos, uma nova imprensa negra, que nasce no interior das mídias eletrônicas com maior qualificação para usar esses veículos. Atribuo parte do crescimento dessas mídias à tradição da população negra de se dotar de veículos para defender seus interesses, mas também para preencher uma lacuna, cobrindo as grandes questões que não são contempladas na cobertura dos grandes veículos. São coisas complementares. Na medida que melhora, nos grandes meios, essa cobertura dos temas relacionados aos interesses da população negra, junto com a cobertura que já é feita pela imprensa negra, a sociedade brasileira vai ter uma melhor compreensão de como essa questão se coloca e dos mecanismos que são necessários pra resolver esse problema ou pelo menos melhorar.

Celso BacarjiQuanto aos movimentos que surgiram nos EUA e que, como você disse, representam um ponto de inflexão na luta antirracista, quais são os rumos, qual o futuro disso, na sua visão?

Carrança — Eu acho que não dá para falar no futuro do movimento negro, nos EUA ou fora dele, sem pensar no futuro da democracia em todo o planeta. E o futuro da democracia passa pelo adequado equacionamento da questão racial. Não dá para pensar a democracia sem equacionar e apontar soluções adequadas para essa pendência, que se arrasta através dos séculos. Então, eu acho que a gente vive um momento de grandes mobilizações, que acuam as classes dominantes e permitem o avanço dos setores oprimidos, mas também acho que é um primeiro momento e que os desdobramentos ainda estão por vir. É trabalho da imprensa, mostrar como isso vai se desdobrar.

* Fred Ghedini é jornalista e presidente da APJor. Celso Bacarji, Everaldo Gouveia, Fábio Soares, Leda Beck e o próprio Flávio Carrança são jornalistas e associados da APJor.

APJor

APJor

A Associação Profissão Jornalista – APJor é uma organização nascida do Movimento Jornalistas Pró-Conselho, criada na assembleia de 22 de outubro de 2016, na Câmara Municipal de São Paulo, com a presença de 40 jornalistas.

Uma resposta

  1. Flavio Carranca é um jornalista estupendo que além do labor cotidiano é um ativista que produz pesquisas, reflexões, ações de combate às desigualdades étnico-raciais ha muitooooo tempo.
    Fala -se do racismo acolá e aqui há uma vontade nata do jornalista e empresas de comunicação em só tratar do tema a partir do exterior, sem olhar a péssima cobertura da vida social do brasileiro abrangendo suas interseccionalidades. Assumam logo que a sociedade é racista incluindo mortais jornalistas.

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